Como sobreviver na mente de um autor 6

Anna já acreditava em Michael. Não pensava ser absurdo a idéia de que seu mundo era criação de alguém. Isso, aliás, já era dito por muita gente e, se personagens nunca sabem que são personagens, então por que Anna não poderia não saber até então?
Ela era americana e uma artista plástica em uma escola de artes que viera à Paris tentar a sorte à francesa; nunca fora excêntrica e era responsável, além de Michael considera-la uma ótima companhia – sem os vícios de julgamento usuais. Após ter aceitado a idéia, Michael sugeriu a ela que tentasse o novo: um segundo emprego, um novo caminho para casa, um novo amor.
Anna iniciou, assim, atividades diferentes. Arrumou um emprego à noite, passou a freqüentar o bar da esquina, fez esportes. Ela se encantou; e se decepcionou. Viu a mentira, o cochicho e a enganação. Ela sempre vira, mas antes estava ocupada e aceitava, como quem vê um casal brigar na rua, sem interferir para não intrometer. Mas agora ela queria ser uma intrusa nessas injustiças cotidianas. Ela passou a filosofar mais, a chorar, a arrastar os punhos pelos muros enquanto andava na rua, desiludida e irritada, como uma inocente que acabou de perder a inocência.
Um dia, ela acordou, fez café e se trocou. Escutou Edith Piaf para acalmar os nervos – acordava irritada – e, depois de ficar um pouco melancólica, sentou-se à mesa da cozinha e se matou com um tiro na boca.

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